O céu dourado

Nascem lantejoulas no céu

Como uma roupa enorme

dourada

de começo de festa

brilhando limpinha

como o começo de um dia ensolarado

Já pensou uma roupa de lantejoulas vestindo o céu?

que maravilha

Iria parecer festa todos os dias

Esse azul que é o céu

nu mesmo

só se veste de cinza quando chove

Se fosse vestido de lantejoulas

douradas

choveria lantejoulas

e ficaria somente o pano dourado

Daí pareceria uma roupa velha

Sem detalhes

O céu térmico

como a cor dourada

O sol amarelo e laranja

Como o calor da roupa de lantejoulas

O peso do calor de um dia muito ensolarado

com o peso de um vestido detalhado.

Tudo se assimila.

Acumula:

Um mundo de pessoas vestidas e cobertas de um céu.

Anúncios

Não.

Eu não sou capaz de escrever

um poema para um homem.

O poema me veste de feminilidade.

Escrevo aos cabelos longos de uma menina

aos cachos assanhados de outra

Ao curto moderno daquela.

Escrevo à quem não rejeita uma troca de simbolismos

coisas que só mulheres entendem

Carregando um útero.

Do cruzamento das pernas

à abertura.

Da vestimenta à nudez

Comentando arte.

Não é doce uma mulher.

A porta está aberta o tempo todo, para um ‘não’ muito fácil.

Não se engane

Tecer os olhos.

Trocar os dias.

Contar os dias férteis.

Os dias das dores de todos os meses.

Os olhos apontados pro nada

guerreando outras gerações.

Incêndio à tantas almas

cinzas femininas entre orações.

Você passa o tempo se perdendo.

Bem assim: viu um copo na beira da janela

dois pássaros voando

um cigarro aceso entre os dedos

os pensamentos entre a fumaça

a lembrança.

Você sonhava, serviu de alívio esse fio cinza

entre o corvo e o céu

era cinza sua lembrança.

O cigarro: bruto, inconsequente, triste, sozinho.

O cinzeiro…

Você dizia quantos sentimentos num cigarro

Tirando a inconsequência

Até o cinzeiro é o meu sentimento.

morno e ligeiramente frio.

Inconstante vento, agora

Era se perdendo

que você ganhava

algumas parcelas de tempo

lembrando o seu cinzeiro antigo

do ano passado

de alguém partindo.

Onde você se encontra

No fio da calçada

No breu dessa noite

Inconstante, muda?

Se encontra calada

No espaço onde anda

Ou almeja outro espaço

Calando esse seu?

Um fio de pensamento seu

Se encontra mudo

Não há certeza ou incerteza

Qual é da sua existência?

Você existe sem existir

Cala o mundo ao seu redor

Te olham e não te vêem

Te cercam pelo incomodo

do teu mundo, mudo

Seu espelho não é de ego

Seu reflexo inexistente

Não mexe com seu vazio existencial?

Você mede força até sendo conduzida.

Fria como sua porcelana.

(Essa é a boneca de uma criança)

Feminismo: “atos, não palavras”

O que posso inferir sobre violência, depois da guilhotina no pescoço da Marie Gouze por ser uma excelente escritora, que transfere para hoje o seu “luto” em “declaração dos direitos das mulheres”?

Por hora, a inferência válida é a de andar na rua sozinha ser o passo primordial a caminho da guilhotina.

Essa guilhotina tem nome: ódio, ódio das mulheres, ódio do movimento feminista. Na rua, essa guilhotina se chama objeto. “Abre essas pernas, que só não são suas, na rua, elas pertencem ao estupro coletivo”

O sangue desce entre à pista, o corpo estira medindo à calçada e a cachaça que era do estrupador padece ali mesmo, ao lado dela, crime perfeito de cupa à vítima.

Onde às suas pernas devem se manterem fechadas?

Se na rua debruça largada

o sangue abre caminhos em suas pernas, descerradas.

Quem nos dera, Gioconda Belli, ” conselhos para uma mulher forte” Se ser forte está quase alinhado ao sentido de morte, antes mesmo de chegar onde queria.

Machismo-violência; NOTA:

Dentro de casa, Maria da Penha.Na rua, Fabiane Maria de Jesus. Onde estava a magia negra?

O sangue entre às pernas da criança, em casa. Entre às pernas da mulher de salto na favela. Entre o coração da mãe que perde sua filha adolescente nos percursos da rua do colégio para casa.

Bárbara Heliodoro, primeira poetisa brasileira, final do poema O Sonho, “nem é morte, nem é mal”

Onde está o mal da Marie Gouze? Para haver morte como ontem, hoje e doravante, algures do mundo todo?

Palavra-chave: MULHER.

A sua tríplice existencial de gênero, contexto e luta te faz ser o que se é. Mas morre, para não ser.

Por quê o conceito de gênero abala, revoluciona e mosquitos gozam na água parada e se assanham venenosos no movimento das coisas.

“Pois o contexto social da mulher não pode se igualar a nada mais nada menos que a submissão” (escrevem os ratos na ditadura)

É Emily Davison, diferentemente de ti que foi-se pela bandeira sufragista, nós também vamos, pelo crescimento do feminicídio.

O massacre de Montréal não terminou. Está perambulando pelo mundo, só por quê temos peitos.

Sobre os segredos das suas pernas… Não era segredo a menstruação, era desculpa a tapar a ignorância masculina e o nojo.

Assino, porém desfaço a frase da Poetisa Heliodora.

“É morte e é mal”

Às vezes eu tenho tanta pressa que o mundo necessita se revelar contra isso em mim.
Ele diz,
Pondere
E eu me aquieto até o momento de invadir o mundo de novo, apressada, fazendo coisas como se não houvesse sorte ou azar.

Minha obediência de se aquietar, é pouca, se apaga.
É como se eu obedecesse mesmo ao destino.
corres, coração e risco.
Tudo nas mãos.
Nas mãos do que não sei,
E não preciso saber agora.

Penso no céu, como algo que sou: Infinitude.

É como se meu coração transbordasse pelas beiradas grandiosidades para além do que o que me cerca exteriormente

Por isso falo do céu.
Por isso cito o infinito.

Não dá pra não pegar na semente das coisas.
É como se na semente eu sentisse o nascimento de um circuito…

Eu querendo pegar na semente que cresce e se transforma em algo que morre.
Mas cresce novamente.

O meu coração às vezes parece uma semente onde eu mesma pego, eu mesma planto e eu mesma o mato ou o vejo morrer e renascer, sendo semente de novo.

Manoel de Barros contava que queria pegar na semente da palavra. Eu, quero pegar na semente da palavra, da planta e do meu coração, que é intenso.

Manoel de Barros nos convida a tornar nosso coração sem comportamento.
Assim como o meu fica agora. Tentando pegar na semente da minha vida. De como e por que eu nasci eu.

Intro-

Paro e penso às vezes que prefiro viver em meu mundo particular

Bate uma idéia de estar sozinha na inquietação que a minha mente provoca

Daí eu lembro que tenho uma vida aqui fora e surge a idéia de: ‘ter que cumprir umas metas diárias, por que são importantes’

Mas, o meu mundo particular é tão bom, tão vasto. Que penso o mundo lá fora como algo pequeno

Porém, o seu lado ruim está nos problemas introduzidos

É quando os do mundo de fora descomplicam em simultaneidade com a revolução de dentro.

A idéia é o avesso:

E se o mundo de dentro fosse o mundo de fora?